Peça Nunca Fui Santo! incomoda católicos
Mara Puljiz
Um padre segurando uma camisinha no lugar da hóstia consagrada. É essa a imagem do folder de divulgação da peça teatral Nunca Fui Santo!, dirigida por Sérgio Sartório e escrita pelo ator e jornalista Alexandre Ribondi. A peça entrou em cartaz no Teatro Goldoni da Casa D'Itália (208/209 Sul) no último dia 13, durante a Semana Santa e sua temporada se encerra no próximo domingo. Desde então, segmentos da Igreja Católica vem demonstrando indignação com o conteúdo apresentado ao público. A Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família resolveu processar todos os organizadores do evento, inclusive o fotógrafo que fez o retrato do ator segurando a hóstia, considerada sagrada para os católicos.
A associação entrou com uma liminar para retirar a peça de cartaz e impedir sua apresentação em outros estados. Segundo o advogado católico e secretário da Associação Pró-Vida e Pró-Familia, Paulo Fernando da Costa, a peça seria um flagrante desrespeito à liberdade religiosa. O crime está tipificado no artigo 208 do Código Penal (veja box). "Somos favoráveis ao teatro, desde que seja de forma sadia", explica Paulo Fernando, que assistiu à peça e se sentiu lesado.
Vinho ralo
No espetáculo, Ribondi encarna Padre Nosso, um sacerdote pervertido e que mantém relações sexuais com uma freira, interpretada pelo ator André Reis, 32 anos. Além disso, Padre Nosso critica o vinho da igreja como sendo "ralo", mas bebe dele até se embriagar. O personagem compara ainda a hóstia – símbolo do corpo de Cristo – a uma minipizza e sugere que ela seja confeccionada em diversos sabores, como tapioca, coco ralado e leite condensado. "Hóstia é feita de farinha de trigo, logo o corpo de Cristo contém glúten", diz Padre Nosso durante a encenação.
Embora seja evangélico, o deputado Henrique Afonso Soares (PT-AC) é outro que repudiou a peça teatral. "Nós percebemos uma verdadeira agressão ao culto de Deus", alega. "Eles estão escarnecendo a fé cristã. Vivemos em uma sociedade democrática e queremos ter os nossos direitos respeitados", resume. Em boicote à peça e também aos seus patrocinadores, diversos e-mails estão sendo repassados via internet.
Em protesto, católicos de Brasília e, inclusive, uma promotora de Justiça também registraram ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul). Segundo a delegada-titular Martha Vargas, os organizadores da peça também registraram ocorrência, alegando direito à liberdade de expressão. Ambas as partes serão convocadas, na próxima semana, para prestar depoimento. O relatório do inquérito será encaminhado à Justiça.

Assuntos delicados
De acordo com Alexandre Ribondi, a peça é puro entretenimento. "É uma comédia de um assunto que eu conheço, que é a vida no seminário. O objetivo é divertir e advertir", explica. Segundo o ator, que desenvolve seu trabalho em Brasília desde 1970 e afirma ser católico praticante, a intenção não é manchar o nome da Igreja, mas abordar assuntos até então pouco divulgados na mídia religiosa, como a pedofilia no ambiente clerical, o celibato, a homossexualidade e o uso da camisinha.
Ator profissional há sete anos, André Reis admite que a peça tem repercutido de modo inesperado, sobretudo por suas críticas ao Vaticano. "A gente quer mostrar para as pessoas um lado que a Igreja não mostra e falar sobre isso de uma forma engraçada e que a platéia entenda", afirma o ator, que garante ser cristão. "Eu sou católico apostólico romano carismático mariano. Eu sou católico nesse nível. Jamais faria uma peça que fosse manchar o nome de Jesus", defende.
Ainda assim, André Reis diz não concordar com certas partes da peça e do material de divulgação, como a imagem de um padre segurando uma camisinha no lugar da hóstia sagrada. "Eu não concordo com muita coisa que acontece nessa peça e essa é uma delas. Mas eu sou profissional, sou ator e tenho que pagar minhas contas e sustentar minha família", explica.